Imagina a cena: são onze da noite, sua criança está doente, já foi ao banheiro pela quarta vez, está molinha no sofá e você abre o armário procurando um envelope de soro que, claro, acabou na última virose. Aí bate a dúvida de sempre: quanto de sal e quanto de açúcar vai no soro caseiro? Todo mundo lembra da receita mais ou menos, e ninguém lembra direito.
A receita do Ministério da Saúde leva 1 copo cheio de água limpa (200 ml), 1 medida rasa de sal e 2 medidas rasas de açúcar da colher-medida. Sem a colher-medida, a Faculdade de Medicina da UFMG orienta misturar 1 colher de café de sal e 1 colher de sopa de açúcar em 1 litro de água filtrada. Abaixo estão o passo a passo, quanto oferecer e os sinais de que é hora de procurar atendimento.
Para que serve (e o que ele não faz)
Quem tem diarreia ou vomita várias vezes perde água e também sais minerais, e é essa dupla perda que leva à desidratação. O soro repõe as duas coisas ao mesmo tempo, o que a água pura sozinha não faz. A Secretaria de Saúde de Alagoas resume bem: o soro não trata o vômito nem a diarreia, ele só repõe o que foi perdido enquanto o corpo se recupera.
E errar a medida é mais comum do que parece. Um estudo citado no Jornal de Pediatria analisou soros preparados por agentes de saúde em Ouro Preto (MG) e encontrou preparo inadequado em 71,1% a 96,1% das amostras, conforme o método usado. Se até quem orienta as famílias erra, imagina a gente no susto da madrugada. Por isso a receita abaixo vem com medida exata e um teste para conferir.
Como fazer soro caseiro: a receita certa, passo a passo
Com a colher-medida (o jeito mais seguro)
- Lave bem as mãos e separe um copo de 200 ml.
- Encha o copo com água limpa, que pode ser filtrada, fervida (já fria) ou mineral.
- Coloque 1 medida rasa de sal, usando o lado menor da colher.
- Junte 2 medidas rasas de açúcar, agora com o lado maior.
- Mexa até dissolver e prove antes de oferecer.
Essa é a receita do folheto do Ministério da Saúde e também a que a Pastoral da Criança ensina às famílias. A colher já vem com a quantidade certa, então a “colher cheia” de um não vira a “colher rasa” de outro. Para conseguir uma, pergunte na Unidade Básica de Saúde do seu bairro.

Sem colher-medida: a versão de 1 litro
Sem a colher em casa, a página de pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG orienta preparar 1 litro: 1 litro de água filtrada, 1 colher de café de sal e 1 colher de sopa de açúcar. Fazer a jarra inteira ajuda, porque um erro pequeno na colher pesa menos em 1 litro do que num copo.
E se você quer só 1 copo de 200 ml com colher normal? Nas fontes oficiais que consultei, não existe medida com colher de cozinha para um copo só. O mais seguro é fazer o litro e servir em copos ao longo do dia. Outra pegadinha: colher de café e colher de chá não são a mesma coisa. A de chá é maior, e trocar uma pela outra coloca sal demais no soro.
| Versão | Água | Sal | Açúcar | Fonte |
|---|---|---|---|---|
| Com colher-medida | 1 copo cheio (200 ml) | 1 medida rasa (lado menor) | 2 medidas rasas (lado maior) | Ministério da Saúde |
| Com colheres de cozinha | 1 litro, filtrada | 1 colher de café | 1 colher de sopa | Faculdade de Medicina da UFMG |
O teste da lágrima e a água certa
Depois de misturar, prove um golinho. O Ministério da Saúde orienta que o soro fique menos salgado que a lágrima. Se ficou salgado demais, jogue fora e comece de novo, em vez de tentar consertar no olho.
Use água filtrada, fervida e já fria ou mineral, porque quem está com diarreia não precisa de mais um motivo para o intestino reclamar. Se você tem dúvida sobre a água que chega na sua casa, veja se dá para beber água da torneira no Brasil.

Quanto oferecer e como dar
O cartaz de manejo da diarreia do Ministério da Saúde traz uma referência por idade para o líquido oferecido depois de cada evacuação diarreica:
| Idade | Quanto oferecer depois de cada evacuação |
|---|---|
| Menores de 1 ano | 50 a 100 ml |
| De 1 a 10 anos | 100 a 200 ml |
| Maiores de 10 anos | A quantidade que a pessoa aceitar |
A Secretaria de Saúde de Alagoas orienta pequenos goles, sem passar de meio copo por vez, e criança pequena aceita melhor de colherzinha. Se vier vômito, o Ministério da Saúde orienta esperar 10 minutos e voltar a oferecer em pouca quantidade.
A comida não sai de cena: o Ministério da Saúde orienta manter a alimentação habitual e, para bebê, não parar de amamentar. Se a criança rejeitar o prato, ofereça um pouco de cada vez. Refrigerante não serve para hidratar quem está com diarreia, e chá ou suco nesse período vão sem açúcar.

Caseiro ou de farmácia: qual escolher?
Com as duas opções na mão, eu escolheria o envelope de sais de reidratação oral, o famoso soro de farmácia, porque ele já vem com a dose exata e tira do caminho o erro de medida. O artigo do Jornal de Pediatria lembra que a Organização Mundial da Saúde reconhece o soro feito em casa como potencialmente eficaz, mas não o recomenda como primeira opção justamente por causa dos erros de preparo.
O envelope tem regra própria: segundo a UFMG e o Ministério da Saúde, o conteúdo inteiro vai em 1 litro de água, sem acrescentar sal nem açúcar e sem ferver depois de pronto. A versão caseira fica para quando o envelope acabou e a farmácia está fechada.
Deixe um kit pronto antes de precisar
Diarreia e vômito sempre aparecem na pior hora. Junto dos remédios da casa, num lugar que todo adulto conheça, eu deixaria:
- dois ou três envelopes de sais de reidratação oral, conferindo a validade de vez em quando;
- a colher-medida num saquinho, para não sumir no meio dos talheres;
- a receita anotada num papel colado por dentro da porta do armário, porque às onze da noite ninguém quer procurar no celular;
- uma garrafa ou jarra só para o soro, que precisa ser feito de novo todo dia. E como a virose passa fácil de um para o outro, mãos lavadas e a casa limpa com filhos entram no pacote.
Um cuidado extra para alguns adultos: o soro tem sal e açúcar, por isso a Secretaria de Saúde de Alagoas orienta que pessoas com diabetes não tomem a versão caseira e procurem orientação médica. Quem tem pressão alta, doença nos rins ou no coração também deve conversar com o médico sobre a melhor forma de se hidratar. Até lá, vá oferecendo água comum em pequenos goles.
Sinais de alerta: quando o soro não basta
O soro dá conta da desidratação leve em casa, mas tem limite. Pelo material do Ministério da Saúde, a pessoa deve ser levada ao serviço de saúde se aparecer qualquer um destes sinais:
- a diarreia piora ou os vômitos se repetem;
- sede muito intensa, com a criança bebendo rápido e com avidez;
- sangue nas fezes ou febre alta;
- olhos fundos, choro sem lágrimas ou irritação fora do normal;
- sonolência excessiva, criança largada ou que não consegue beber, que são sinais de desidratação grave.
A Secretaria de Saúde de Alagoas também orienta procurar o médico quando a diarreia e o vômito durarem mais de 24 horas. E nada de dar remédio para “prender” o intestino por conta própria, porque isso pode piorar o quadro da criança. Nunca medique sem orientação médica.
Ainda ficou com dúvida?
Posso dar soro caseiro para bebê?
Com bebê, a régua é mais curta. Para menores de 6 meses, ou se você tiver qualquer dúvida sobre a quantidade, fale com o pediatra antes de oferecer qualquer coisa além do leite materno. A partir daí, a referência do Ministério da Saúde para menores de 1 ano é de 50 a 100 ml depois de cada evacuação, sem parar de amamentar.
Quanto tempo dura depois de pronto?
No máximo 24 horas. Depois disso, o que sobrou vai para a pia e você prepara de novo, conforme orientam o Ministério da Saúde, a UFMG e a Pastoral da Criança.
Posso colocar mais açúcar ou suco para a criança aceitar?
Não. Mexer na proporção muda o soro e pode atrapalhar a reidratação. Se a criança recusa, ofereça menos quantidade, de colher, com mais frequência.
Serve para lavagem nasal?
Não. Ele tem açúcar e foi feito para beber. Para lavar o nariz, o produto indicado é outro, e quem orienta o uso é o pediatra ou o médico.
Para fechar
O soro caseiro certo é 1 copo de água limpa com 1 medida rasa de sal e 2 de açúcar, ou 1 litro com 1 colher de café de sal e 1 de sopa de açúcar, sempre provado antes. Ofereça em goles depois de cada evacuação, prefira o envelope de farmácia quando tiver e procure atendimento diante de qualquer sinal de alerta.
Este conteúdo é informativo e foi feito com base em materiais do Ministério da Saúde, de secretarias de saúde e de instituições médicas. Ele não substitui a avaliação de um médico ou pediatra, principalmente no caso de bebês, idosos e pessoas com doenças crônicas.





